Mensagens Subliminares: A Fantástica Fábrica de Chocolate


O livro “Charlie and the Chocolate Factory”, do escritor britânico Roald Dahl (1916-1990), foi publicado primeiramente nos Estados Unidos, em 1964 (no Reino Unido em 1967), e deu origem a dois filmes: “Willy Wonka & the Chocolate Factory” (1971) e "Charlie and the Chocolate Factory" (2005). Ambos ficaram com o mesmo título em português: “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

À esquerda, a primeira capa, desenhada por Joseph Schindelman (clique para aumentar). À direita, uma capa pós 1998, quando os desenhos passaram a ser feitos por Quentin Blake.

Em 1972, Dahl publicou uma continuação ("Charlie and the Great Glass Elevator") e, decepcionado com o filme, não permitiu que fosse filmada. No entanto, o filme de 2005 inclui detalhes deste segundo texto.

Livro e filmes merecem uma detalhada comparação - literária, cinematográfica e mesmo sociopolítica - assim como uma análise psicológica, que propus no artigo "Psicanálise de uma fábula moderna" (Diário da Manhã, 28-08-05).

Os personagens

Uma primeira discussão é sobre os protagonistas: Charlie Bucket e o fabricante de doces. O menino e o empresário fazem contraponto, como os dois lados da mesma moeda. O filme de 2005 enfatiza os traços de Willy Wonka como personagem excêntrico, infantiloide, insociável, misterioso e sexualmente indefinido - que dialoga com um menino honesto, sincero, humilde, generoso, íntegro. Um busca o outro, como a completar-se mutuamente.

Os outros quatro meninos representam os erros que o autor quer criticar: o caubói violento Mike Teavee (esq., em 2005), a obsessiva Violet Beauregarde, o alemão comilão Augustus Gloop e a manipuladora Veruca Salt - os sotaques de cada país dão mais riqueza à sátira. Todos são levados à morte por esses traços defeituosos, que como doenças mentais ainda afligem a humanidade no século XXI.

O grande sucesso da história entre os leitores infantis, no entanto, não radica na mensagem moralista, mas no lado satírico que descreve a realidade sem enfeites, realiza desejos ocultos e castiga duramente os comportamentos "normais" de crianças e adultos.


Estragando crianças

O livro traz uma forte crítica aos pais que manipulam filhos pela permissividade (falta de limites ao comportamento), por superproteção ou por projetar neles expectativas frustradas. Quando Veruca (esq., em 1971) é avaliada como "ruim" pelos esquilos analistas de nozes (na balança para ovos dourados chamada Educated Eggducator), o inglês brinca com o duplo sentido de nuts (nozes ou loucos) e spoiled.

Spoil significa 1.“estragar, deteriorar algo” e 2.“malcriar, mimar um filho”, de modo parecido a como em português “corromper” pode ter o sentido de “arruinar, decompor, apodrecer” (uma coisa) e o de “viciar, desviar, perverter” (uma pessoa).

A bruxa má: mãe devoradoraA psicanalista Diana Corso vê nesta fábula uma reedição de “João e Maria” (ZH, 10-08-05). Nessa história dos irmãos Grimm, escrita há dois séculos, as crianças são atraídas por uma figura materna malvada, ou seja, por um ventre que as engolirá e destruirá.


A mensagem psicológica oculta é que a ansiedade infantil, manifestada oralmente pelo comer, tem direta relação com a agressividade da mãe. Para escapar do processo destrutivo da imaturidade, devemos controlar a ansiedade oral (parar de comer, equivalente a parar de beber ou de fumar), abandonar a mãe dominadora (casando com alguém da nossa idade) e buscar o nosso próprio caminho, a trilha que nos levará do falso ao verdadeiro lar, do berço da angústia ao amor do bem comum.

O bruxo moralista e abusador

A fábula moderna, a da indústria de chocolate, apresenta o perigo inverso, de caráter paterno (conforme a observação de Diana Corso). Willy Wonka atrai à sua casa de doces os filhos mimados de famílias permissivas (paradoxalmente, a permissividade retém, não liberta). O bruxo sedutor deseja castigar crianças e adultos egoístas.
O pecado que este pai aparentemente irracional aponta é, no filme de 1971, a falta de limites na educação, traço típico da ausência da autoridade (seja esta masculina ou feminina). A lógica moralista do século 19 critica a calidez liberal moderna; o pai durão questiona a mãe branda.

Este anti-Papai Noel com seus gnomos (esq.) também é recalcado e manipulador, e quererá se redimir pela honestidade do menino pobre, visto como filho simbólico (os escravos “umpa-lumpas”, que eram africanos no original, ficaram brancos por razões políticas).
No filme de 2005, com Johnny Depp como Willy Wonka (esq.) pode-se ler uma alusão à pedofilia, transtorno mental em que um adulto quer seduzir uma criança, percebida como amorosamente atraente (“eu te dou meu pirulito e tu me emprestas a tua pureza”). A referência fica mais clara no final, quando o empresário dá de presente ao menino “preferido” a fábrica inteira, sob a condição de vir sem a família.

É fácil associar esta figura com Michael Jackson (dir.), também milionário, assexuado, megalomaníaco, desajustado, perfeccionista e com uma especial atração por crianças. 

A infância do doceiro

O diretor Tim Burton ainda enriquece a história original com dados da infância de Willy Wonka. Foi ele um menino mimado, como seus gulosos clientes? Ou sua obsessão pelos chocolates foi uma reação rebelde ante um pai repressivo? Por que ele odeia tanto os adultos permissivos e as crianças mal-educadas?

O filme coloca uma hipótese algo complexa. Como o obsessivo pai de Willy proibiu-lhe comer todo tipo de doces para não ter cáries, gerou no filho simultaneamente um acelerador e um freio: uma urgência por se libertar da tirania do pai e uma raiva que o impede de amadurecer.

Por um lado, está identificado com o pai ambicioso e rígido, motivo pelo qual detesta as pessoas frouxas e busca um herdeiro que prolongue sua missão e resolva suas frustrações. Por outro lado, está ressentido com esse pai, razão pela qual não quer ser adulto, detesta todos os pais do mundo e procura com desespero um menino que lhe devolva a inocência perdida.


Moral da história

Para libertar-se, Willy deverá achar uma criança idealista e livre, sem pais manipuladores. Diana Corso conclui que Willy precisa de um herdeiro tão pobre que não tenha expectativas, para poder aprisioná-lo e usá-lo. E esse será Charlie. O filho e neto de operários desempregados será o novo empresário, mas não tão manipulável como se pensava. E sobretudo será o terapeuta idôneo (limpo de ressentimentos e pleno de afeto) que ajudará a limpar a alma do neurótico Willy.

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