14/11/2018

Cultura popular e cultura erudita

Cultura popular e cultura erudita
Cultura popular e cultura erudita
No final do século XIX observou-se em diferentes países a valorização de elementos provenientes da cultura popular: eram os movimentos nacionalistas. Intelectuais, ligados ou não ao Estado, buscavam símbolos que representassem a identidade da nação.

Não foi diferente no Brasil: ideia de um povo miscigenado foi valorizada e percebida como um traço autêntico, responsável pela grande criatividade do brasileiro. Propagou-se a ideia do país formado pela integração das três raças: o branco, o negro e o índio. Consolidou-se um racismo que nega sua existência, encoberto pela ideia de democracia racial. Um racismo hierárquico, formado pela gradação de cor, onde o mestiço, ao contrário do que ocorre em outras sociedades, possui um lugar ambíguo no triângulo racial. Ao mesmo tempo, a ideia de miscigenação forjou a identidade brasileira e seus símbolos nacionais.

Cultura popular e cultura erudita

O termo popular teve sua origem com a formação dos Estados Nacionais Europeus, a qual fora marcada por uma profunda estratificação de classes sociais. Na época, a sociedade europeia estava constituída por uma hierarquia rígida, na qual a nobreza e o clero possuíam privilégios negados ao restante da população, sendo o acesso à cultura letrada um deles.

Havia uma oposição estabelecida entre o culto (erudito, letrado) e o inculto (popular, iletrado), talvez uma herança quanto ao uso cotidiano do termo “cultura”. Mais do que uma distinção de classe, os termos popular e erudito expressavam formas diferentes de ver o mundo.

O erudito conhece o mundo a partir de conceitos abstratos, ao passo que o conhecimento popular se constitui com base na experiência cotidiana. O mundo na cultura popular não é racionalizado: ele é vivido, e a partir da experiência que a reflexão sobre a realidade é produzida. Estas operações permitem ao popular sincretizar elementos variados.

Folclore e intelectuais

No século XIX o sentido pejorativo atribuído ao popular começou a mudar. Na época, os processos industriais e a migração campo-cidade proporcionavam uma sensação de perda das "tradições". O Romantismo foi um reflexo dessa sensação, procurando revalorizar o bucólico, o campo e, com isso costumes camponeses. Foi neste contexto que nasceu o folclore e os movimentos nacionalistas.

O popular se tornou um instrumento para produzir um sentido de pertencimento e de identidade nacional. Na ideia de tradição, a qual os estudos folclóricos tinham por objetivo registrar, estavam inclusas políticas estatais de criação de identidades nacionais.

O mesmo ocorreu no Brasil: vários folcloristas e pesquisadores percorreram o interior do país registrando diversas manifestações para que as mesmas "não se perdessem". Na Semana de Arte Moderna de 1922 observamos que a valorização e a ressignificação do popular tornara-se um projeto intelectual.

Democracia racial

Nem sempre o Brasil teve orgulho de ser um "país de mestiços". No século XIX, sob a influência das teorias raciais, havia preocupação por parte dos segmentos conservadores da sociedade quanto ao futuro do país. Acreditava-se que a miscigenação retiraria qualidades inscritas em cada uma das três raças.

Esse discurso mudou quando a miscigenação passou a ser encarada como uma característica positiva e constitutiva da identidade brasileira. Inicialmente pensava-se em termos genéticos, afirmando que a miscigenação produzia pessoas mais aptas ao clima tropical. Posteriormente, passou-se enfatizar a contribuição das três raças (branca, negra e indígena) para a formação cultural do Brasil. Forjou-se então a ideia de democracia racial, os processos de dominação foram apagados e se criou a ideia de integração harmônica das três raças. Na democracia racial não há espaço para o racismo, o que não significa que ele não exista.

Racismo no Brasil

Hoje, com a introdução das políticas de cotas e de outras ações afirmativas, passamos a discutir e nos deparar abertamente com o racismo, mas trata-se de uma mudança recente. A noção de democracia racial produz uma invisibilidade do racismo, pois como seria possível existir racismo em um país no qual as três raças se integraram "harmonicamente"? A integração racial não seria possível em um sistema igualitário, no qual as diferenças são abertamente reconhecidas. Só é possível produzir a ideia de integração racial em um sistema hierárquico, pois nega-se as diferenças.

Podemos representar a relação racial no Brasil como um triângulo: os brancos estão na ponta, enquanto negros e índios compõem sua base. Entre a ponta e base estão os mestiços. Os elementos intermediários – os mestiços – são compostos por uma série de gradações do mais claro ao mais escuro, integrando as partes do triângulo. 

Símbolos nacionais

A criação dos símbolos nacionais foi um projeto político de integração nacional. No Estado Novo, o Governo Vargas iniciou a Campanha de Nacionalização, entre as décadas de 1930 e 1940. O projeto visava fortalecer o nacionalismo e, com isto, a integração nacional.

A Campanha de Nacionalização via o estrangeiro como uma ameaça à integração nacional. As colônias alemãs, polonesas, italianas etc., passaram a sofrer uma série de restrições, como a proibição de falar a língua materna. Nesse cenário criou-se um gradiente de brasilidade: aqueles considerados mais estrangeiros (como alemães e poloneses) eram mais ameaçadores à integração do país. Por outro lado, manifestações até então marginalizadas pela sociedade, como o carnaval e o samba, foram transformadas em símbolos que sintetizavam o que significava ser brasileiro.
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