15/11/2018

Diversidade e Globalização

Diversidade e Globalização
Diversidade e Globalização
A globalização é um fenômeno antigo, presente desde as Grandes Navegações, início da consolidação do sistema econômico mundial. No princípio da década de 1990 a globalização adquiriu um importante espaço de discussão: a pergunta que se fazia era se os avanços tecnológicos dissolveriam as diferenças locais.

Ao contrário do que se pensava, foi nesse período que se observou no Brasil um movimento oposto: o de luta por direitos de populações e grupos minoritários, que passaram a afirmar sua identidade diferenciada. No mesmo período foram criadas as primeiras Unidades de Conservação extrativistas e de uso sustentável, cuja existência só foi possível graças ao reconhecimento de modos de vida distintos.

Os avanços tecnológicos também não promoveram a assimilação de grupos indígenas à cultura global. O fato foi que esses grupos se apropriaram da tecnologia para a difusão de sua realidade.

Diversidade e globalização

Com os avanços tecnológicos da comunicação, em especial a disseminação da internet, acirrou-se o questionamento sobre os impactos desse processo na diversidade humana. Perguntava-se se fenômenos como a indústria cultural ou a cultura de massa acabariam por homogeneizar diferentes culturas. Tais pontos de vista encaram as pessoas e as sociedades como passivas, meros receptáculos de informação, propaganda e padrões impostos pela grande indústria.

Observa-se o contrário: que longe da diversidade ser apagada, ela é reforçada sob diferentes aspectos. As pessoas, como temos aprendido com a tradição antropológica, não são passivas, mas interpretam informações e eventos a partir de suas próprias leituras. Deste modo, processos globais, no interior do qual está incluso a indústria cultural, são transformados em contextos específicos.

Capitalismo no plural

O capitalismo é um sistema global que se consolidou lentamente com a expansão territorial do Ocidente. As possessões ultramarinas e a implantação do sistema colonial possibilitaram interligar rotas comerciais em escala planetária. Em parte, o capitalismo se consolidou graças ao sistema escravagista, com base na implantação do chamado "comércio triangular". Este, por sua vez, veio a consolidar um sistema de intercâmbios comerciais ininterrupto entre África, Europa e Américas.

Já a Revolução Industrial intensificou os processos de produção e a exportação de artigos manufaturados, criando a necessidade permanente de novas demandas. Não obstante, se o capitalismo transformou o mundo, também foi profundamente transformado por ele. Não se pode falar em capitalismo no singular, porque, o sistema global é incorporado a partir de categorias culturalmente distintas.

Identidade e novas tecnologias

Aqui retomamos uma discussão clássica: a relação entre cultura e história. Sabe-se que a cultura é dinâmica. Não obstante, pensamos com frequência que as mudanças estão restritas à nossa sociedade. O uso de novas de tecnologias é visto com espanto quando tratamos de grupos considerados "tradicionais”, em especial os indígenas.

Veremos que incorporar novas tecnologias, em especial aquelas ligadas à comunicação, não implica em perda cultural. Muito pelo contrário: esta tem sido utilizada para salvaguardar diferentes expressões culturais. Tais tecnologias tem contribuindo para divulgar a realidade destes grupos para a sociedade nacional. A democratização de novas tecnologias de comunicação, expandiu a rede de contatos de várias sociedades que antes dependiam exclusivamente da figura de um mediador, geralmente um antropólogo, para fazê-lo.

Cultura como categoria política

Vimos até agora que a cultura possui dois sentidos: o do senso comum (para o qual a cultura está ligada ao conhecimento formal), e o conceito antropológico. Apresentaremos agora um terceiro significado do termo: o referente ao seu uso instrumental e político.

Vários grupos minoritários passaram a reivindicar o reconhecimento de direitos sociais utilizando como argumento político a existência de uma cultura diferenciada. A discussão sobre a instrumentalização da cultura ganhou fôlego graças ao fenômeno da insurgência étnica, na qual grupos que até então negavam sua identidade passaram a reivindicá-la, reconstruindo tradições que conheciam apenas na narrativa dos mais velhos. Seria então a cultura uma invenção? Quando se trata da relação entre diferentes sociedades, a cultura é uma criação, um encontro de dois sistemas de mundo distintos. Alguns traços devem ser selecionados para que o outro possa reconhecê-los como diacríticos.

População e territórios tradicionais

Em meados da década de 1990 duas Unidades de Conservação foram criadas no Brasil, alterando a legislação até então vigente: a Reserva Extrativista do Alto Juruá, e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

A grande mudança é que até então não havia na legislação uma categoria de unidade de conservação que permitisse a presença de moradores. Não se tratava de povos indígenas, mas de ribeirinhos, seringueiros, pescadores, etc. Para possibilitar a permanência dessas pessoas foi utilizado o argumento de tradicional, ou seja, pessoas que possuíam um modo de vida e uma interação com o mundo natural diferenciados do restante da sociedade. Ao mesmo tempo, a criação destes novos espaços foi mediada por uma série de discussões articulando atores políticos em diferentes escalas: movimentos de base, ambientalistas e cientistas, Estado Nacional, instituições e financiadores internacionais.
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