09/11/2018

O que é cultura? [Estudos da Antropologia]

O que é cultura?

O que é cultura? [Estudos da Antropologia]
O que é cultura? [Estudos da Antropologia]
Abordaremos o conceito de cultura, mas antes de compreender seu sentido é necessário falar sobre o modo como o utilizamos em nosso dia a dia.

Precisamos romper com a ideia recorrente segundo a qual apenas pessoas que estudam possuem cultura. A Antropologia nos ensina que a cultura está em todos os lugares, pois nós, humanos, compreendemos o mundo ao nosso redor a partir de um conjunto de símbolos e significados. Assim, mesmo aquilo que consideramos natural em nosso comportamento é mediado pela cultura.

O termo cultura foi utilizado pela primeira vez no século XIX por Edward Tylor, e desde então o conceito sofreu várias revisões, sempre no intuito de torná-lo mais preciso. Passaremos por algumas das principais escolas de pensamento antropológico para compreender os usos distintos deste conceito. Para avançar na reflexão antropológica, trataremos das dinâmicas da cultura e suas transformações constantes.O conceito de cultura é uma das pedras de toque da antropologia. No entanto, a palavra também é difundida em nosso vocabulário cotidiano e possui sentidos distintos, os quais cabe aqui esclarecer.


Em nosso cotidiano o termo cultura é classificatório, distinguindo pessoas a partir de determinados atributos relacionado ao acesso e domínio de conhecimento formal. Desta forma, quando afirmamos que uma pessoa “tem cultura”, estamos nos referindo a critérios como seu tempo de estudo, o número de idiomas que domina, seus gostos musicais ou de demais formas de entretenimento. Segundo essa visão, aqueles que não partilham do mesmo universo não possuiriam cultura. É por este motivo que a cultura aqui está hierarquizando diferentes grupos sociais ou indivíduos.


A antropologia segue o caminho inverso: todas as manifestações humanas são dotadas de cultura, pois são mediadas por um conjunto de valores e significados.



Os determinismos

Procuramos desconstruir outra ideia presente em nosso dia a dia: a que estabelece que alguns comportamentos são influenciados por fatores externos à cultura. Fatores como clima, geografia, instintos ou influência genética seriam determinantes em diferentes aspectos da vida.

No determinismo geográfico, por exemplo, acredita-se que as condições ambientais ou climáticas são essenciais para o desenvolvimento econômico e a boa produtividade. Não se trata de negar a influência do ambiente, mas de pensá-la em termos de uma relação mediada pela cultura, e não um fator determinante.

Fala-se muito em “instinto de sobrevivência” e “instinto materno”, mas, ao contrário do que se pensa, há pouca influência dos instintos em nosso comportamento. Pensar o suicídio como fato social nos permitirá desconstruir essa ideia. Ao questionar a noção de determinismo abrimos caminho para uma interpretação na qual a cultura e o social são protagonistas.


Natureza e cultura

A relação entre natureza e cultura é um tema antigo e presente no pensamento ocidental.

O pensamento dos contratualistas é emblemático para entender que natureza e cultura foram pensadas como domínios opostos. No contratualismo acreditava-se que a passagem do estado de natureza para o estado de cultura constituía o estabelecimento do pacto social. A ideia de pacto era sobretudo a de um princípio filosófico, e, portanto, não podia ser entendida no sentido literal. No entanto, a passagem do estado de natureza para o estado de cultura influenciou a antropologia moderna.

Neste sentido, Claude Lévi-Strauss argumentava que a cultura se estabelece quando a primeira regra é criada e com ela vêm os processos de trocas e de comunicação entre diferentes grupos. Outras abordagens passaram a criticar o dualismo implícito na relação natureza/cultura. Para autores como Tim Ingold, não se trata de opor um ao outro, pois há um continuum entre eles.


Pensamento antropológico

Veremos algumas escolas do pensamento antropológico, suas principais ideias e influências.

Desde que o conceito de cultura foi forjado por Tylor, no final do século XIX, foram abertos outros caminhos para entender o homem e a diversidade cultural. A proposta conceitual de Tylor era abrangente, envolvendo todas as dimensões da experiência humana. O conceito antropológico de cultura, tal como foi utilizado pela antropologia norte-americana, abriu caminho para compreender as relações entre indivíduo e sociedade, seja a partir do aprendizado e dos processos de socialização, seja no diálogo entre psicologia e antropologia.

No estruturalismo de Lévi-Strauss a cultura aparece como um processo lógico para organizar e classificar o mundo sensível. Geertz procura restringir o conceito de cultura a fim de torná-lo mais preciso, valorizando a singularidade e as expressões locais da sociedade estudada.


Cultura e história

Veremos que a cultura não é algo estático, mas em permanente transformação. Trata-se de uma questão importante, já que em nosso senso comum pensamos que a nossa sociedade é a única capaz de mudar sem perder sua autenticidade.

Quando pensamos em outras sociedades, em especial as indígenas, qualquer mudança ou introdução de inovações tecnológicas é entendida como perda cultural. Sociedades estão em contato permanente e isso gera mudanças no interior da cultura, mas essa transformação nunca é unilateral. Evidentemente nos processos coloniais as sociedades nativas sofreram um processo violento de dominação, mas a sociedade colonial também foi transformada. A colonização também não foi passiva, pois a cultura possibilita interpretar eventos históricos em si próprios.
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