14/11/2018

Visão antropológica sobre as características do brasileiro

Visão antropológica sobre as características do brasileiro
Visão antropológica sobre as características do brasileiro - O "jeitinho brasileiro"
Nosso objetivo é refletir, de um ponto de vista antropológico, sobre algumas características gerais de nossa sociedade. Em outras palavras, dentro de uma escala sociológica iremos analisar alguns princípios que constituem aquilo que chamamos de "brasilidade": a malandragem, o jeitinho, o "você sabe com quem está falando".

Um dos nossos principais interlocutores será Roberto DaMatta, devido à sua abordagem dedicada a elaborar uma "antropologia do Brasil". DaMatta demostrou que, além do racismo, outros elementos da sociedade brasileira têm suas raízes em princípios hierárquicos com base na desigualdade. Vive-se em uma sociedade que se pretende "moderna" e individualista, mas privilegia as relações pessoais como forma de navegação social, dualidade presente em diferentes dimensões da realidade brasileira. O jogo de relações entre individualismo e relações pessoais nos permite refletir sobre o que é ser cidadão no Brasil e suas implicações.

Antropologia no Brasil

Marisa Perirano (2006) estabeleceu uma distinção entre Antropologia feita no Brasil e Antropologia sobre o Brasil. Enquanto a primeira está relacionada aos estudos de caso, na área urbana, rural ou em sociedades indígenas, a segunda atua em uma escala sociológica, procurando compreender elementos que dão sentido a "um modo de ser brasileiro".

Pode-se partir do princípio que há um ethos: ou seja, um modo de expressar e de se expressar nas mais diferentes situações. A escala é sociológica, pois tem como objetivo compreender princípios gerais e grandes temas, como cidadania, política, processos do judiciário, corrupção etc. No entanto, a forma de abordar essas grandes dimensões assume um caráter antropológico: se há corrupção na política, porque ela é esperada pela população? Como as relações se constituem dentro do espaço político? Como e em que níveis a corrupção é possível e até mesmo tolerada neste espaço? O que é honra na política?

Cidadania no Brasil

A cidadania é um princípio universal dos Estados Modernos e o avanço com respeito à conquista de direitos remonta ao século XVIII, quando os direitos civis foram obtidos. No século seguinte foram alcançados direitos políticos e apenas no século XX chegou-se aos direitos sociais. Há, portanto, uma estreita relação entre estado e cidadania, mas o modo como esta relação opera é variável e se relaciona com os processos históricos de construção da sociedade nacional.

No Brasil existe uma tensão entre um Estado que se pretende moderno e igualitário e uma sociedade organizada segundo um sistema de distinção e privilégios, e foi entre estes dois polos que a cidadania foi construída. Em nosso país a ideia de cidadania foi vinculada à posse de alguns documentos oficiais, como a carteira de trabalho e o título de eleitor. A posse desses documentos, restrita em muitos casos e contextos, foi durante muito tempo prerrogativa para acessar direitos que seriam universais.

A casa e a rua

Para Roberto DaMatta nossa sociedade é relacional, ou seja, transita-se por universos que a princípios são opostos, mas que no Brasil se complementam. O Brasil opera, simultaneamente, com uma lógica moderna, do indivíduo, segundo a qual todos são iguais perante a lei, e uma lógica tradicional, na qual o que importa são as redes de relação da pessoa. É possível entender melhor essa lógica em termos espaciais: pela oposição entre o universo da casa e o mundo da rua.

A casa é o lugar onde o que importa são nossos vínculos e o lugar que ocupamos dentro daquele universo: pai, filho, cunhado. Na casa temos então uma posição definida, mas que é sustentada por vínculos afetivos com pessoas que conhecemos intimamente. A rua, por sua vez, é um mundo impessoal, no qual somos anônimos, apenas indivíduos no meio da multidão. Entre estes dois espaços há lugares intermediários, com os quais podemos compreender melhor as nuances entre um e outro.

O jeitinho brasileiro

Segundo DaMatta, um universo relacional no qual coexistem princípios aparentemente contraditórios, o individualismo e hierarquia, requer estratégias de navegação social adequadas. A navegação social permite acionar um ou outro universo, dependendo do contexto e do sujeito.

O jeitinho é uma estratégia possível, a qual consiste em se trazer o mundo da casa (o universo das relações pessoais) para contextos impessoais. Outra possibilidade de navegação social, oposta ao jeitinho, é "o você sabe com quem está falando?". Nesta última aciona-se uma posição hierarquicamente privilegiada do sujeito, a qual é sustentada seja por uma rede de relações, seja por uma situação econômica, política ou social diferenciada, a fim de burlar regras que deveriam ser aplicadas a todos. Ao mesmo tempo, o "você sabe com quem está falando", promove uma separação entre os sujeitos, enquanto que o jeitinho tem como objetivo criar artifícios para aproximá-los.

No Brasil tudo acaba em Carnaval?

Neste momento trataremos um pouco das festividades, dos rituais, e como são capazes de revelar diferentes representações de uma mesma sociedade. Em sua obra, DaMatta estabelece um paralelo entre o Carnaval e as festas cívicas (ou oficiais do Estado). Nestas últimas a ordem social é reforçada, e cada pessoa ocupa seu lugar definido na festa, sem espaços para transgressões.

O espaço para romper com a ordem seria o Carnaval, no qual, segundo DaMatta, a inversão da ordem vigente não é só possível, como também esperada. No Carnaval se cumpre o ideal de igualdade: é o momento em que as diferenças são dissolvidas; negros e brancos, ricos e pobres celebram lado a lado. A possibilidade de se acabar com as diferenças é viável porque no Carnaval as pessoas são personagens, transportando-se para uma realidade na qual o homem pode se vestir de mulher e vice-versa, por exemplo.
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