01/01/2019

A Verdadeira História da Inquisição

A Verdadeira História da Inquisição

A Verdadeira História da Inquisição
Rino Cammilleri: A Verdadeira História da Inquisição
A verdadeira história da Inquisição, de Rino Cammilleri, é uma obra didática e esclarecedora. O primeiro passo para os interessados no tema. Escrita de modo claro e simples, sem os rigores acadêmicos, oferece aos leitores uma visão abrangente e bem construída. Seu autor, jornalista, cientista político de formação e professor de Sociologia, após iniciar sua vida no movimento estudantil (de esquerda), converteu-se posteriormente ao catolicismo, graças ao estudo - esse é, aliás, um dos caminhos mais comuns na vida de muitos. Religião católica e leitura, estudo e meditação. Faz parte de nossa tradição. 

O tema não é simples, pois está revestido de muitos filtros e cortinas, especialmente para nós, filhos ainda do século XIX. Juntamente com as Cruzadas (palavras que, aliás, nem sequer existia no tempo delas"), a Inquisição é a principal bandeira dos que fazer da história um palco de debates políticos, de anacronismo temporais e da ideia de que o tempo é uma linha reta que sempre se estende do pior para o melhor. Para entender as Inquisições (sim, no plural, como Cammilleri o sabe), é preciso estudar História e Direito, História e Teologia, História e Cultura. Pois não é fácil desconstruir os preconceitos que aprendemos quando crianças, de nossos professores e pedagogos que, na maior parte das vezes, nem sequer leram um documento de época.

Para adentrar esse emaranhado de desinformações, Cammilleri se propõe a fazer o básico: informar. Jornalista que é, discorre de modo simples, como disse. E começa com pinceladas sobre o contexto histórico medieval. os cátaros (ou albigenses) foram o motivo primeiro da criação da Inquisição medieval - recordam que, para cada assunto por ele tratado, há toneladas de obras e de fontes primárias (isto é, textos de época) já publicadas e comentadas. Sua narrativas do funcionamento da Inquisição (com o tema das torturas) talvez seja a parte mais esclarecedora para o público leigo para o qual se destina esta obra. De fato, para a História do Direito, conhecer a Inquisição é fundamental, pois ela criou o sistema processual tal qual o conhecemos. Antes dela, o que havia eram ritos sumários, muitas vezes baseados em provas irracionais (duelos, ordálios, etc.). A partir dela, testemunhas, com notários Documentos escritos. Para o historiador, pérolas, como já afirmou Emmanuel Le Roy Ladurie (1929-).

Cammilleri também trata, rapidamente, do processo dos Templários e do de Joana d'Arc. Quanta lenda a respeito já li! A seguir, aborda a Inquisição espanhola e sua lenda negra. O leitor deve estar atento, pois, a partir daí, ele já não se encontra mais na Idade Média, mas nos tempos modernos, tempos em que os Estados nacionais se apropriam do tribunal para seus próprios interesses políticos, muitas vezes à revelia do papado, como já mostrou Régine Pernoud (1909-1998). De qualquer modo, saberão que os casos de condenação à morte por parte da Inquisição espanhola foram raros, proporcionalmente ao número de processos. Já tive a oportunidade de me debruçar sobre o tema. Gostaria de apresentar uma tabela com esses números - quando a apresentei em uma palestra, para uma platéia de advogados e juristas em um congresso de História do Direito, e a perplexidade foi geral:
A Verdadeira História da Inquisição
Número de julgamentos e execuções durante a Inquisição
Em 160 anos, a Inquisição espanhola moveu uma média de 544 processos por ano, com oito execuções anuais. Se a compararmos ao tribunal revolucionário francês de 1793, ou ao comunista de 1936...

Mas não quero escrever um artigo. Por isso, volto ao livro Cammilleri. Sua parte 2 está dedicada à INquisição espanhola, mas também à romana e ao mundo protestante. São apenas pinceladas, mas corretas, bem escritas e com uma ótima base bibliográfica.

Em sua Parte 3, Cammilleri trata dos "casos" famosos (Galileu, Giordano Bruno). E das bruxas. E dos anabatistas. Sua narrativa flui ágil, sem quaisquer acentos, justificativas, perorações. O livro não é apologético, mas informativo. Por isso, é uma boa introdução ao tema. Geral, didática e instigante. Cumpre seu papel: instiga o leitor a se aprofundar nos assuntos tratados. Como historiador, considero útil que em nosso país, tão atravessado por guerras ideológicas, tão dilacerado por visões históricas extremadas, maquiavélicas, haja uma obra abrangente e didática. Simples às fontes. Louvo a Editora Ecclesiae por essa iniciativa. Que tenha Sucesso!
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