03/01/2019

O contexto histórico da Inquisição

O contexto histórico da Inquisição

O cristianismo, como é sabido, praticamente transferiu-se de Jerusalém para Roma, fazendo da capital do mundo o seu epicentro e terminando por torna-se, depois de Constantino e Teodósio, a religião oficial do Império Romano. Com o colapso deste, os cristãos sentiram-se espiritualmente seus herdeiros, lastimaram a perda da segurança e do poder, e viveram com o sonho de poder restabelecê-lo na primeira ocasião. Quando um líder forte o suficiente, Carlos Magno, pôde garantir um mínimo de ordem e de justiça, renasceu o Império Romano, agora também Sacro. Portanto, desse ponto de vista houve uma continuidade entre a época imperial e a Idade Média europeia. Na Alta Idade Média das invasões e da anarquia feudal, os monges pacientemente procuraram salvar aquilo que podiam de uma cultura que todos julgavam superior - aquele romana -, cultura que a Igreja tinha assimilado nas suas instituições a si mesma romana, coisa que perdura até hoje.
O contexto histórico da Inquisição
Ora, no mundo romano a religião não era de maneira alguma assunto privado, mas, sobretudo, de competência pública. Todos os cultos eram, sim tolerados, porque os romanos, em sua expansão, conforme entravam em contato com novos povos, temiam torna-se inimigos de alguma divindade que não conheciam; mas os deuses de Roma eram os garantidores da propriedade do Estado, e o imperador era o seu sacerdote supremo. O imperador era, em suma, o vigário da divindade e nele o temporal e espiritual estavam indissoluvelmente ligados. Por isso, quando o Estado romando tornou-se cristão, os imperadores achavam bastante natural convocar e presidiar os concílios, eleger papas e defendê-los, nomear bispos e abades. Mesmo depois da distinção colocada por Gregório VII a partir de 1073, foi preciso ainda quase um século e meio de lutas para que o princípio da autonomia (não da separação) da religião em relação à política se afirmasse. E, malgrado isso, o soberano permanecia sacro e responsável junto ao papa pela salvação eterna de seus súditos. Na verdade, o cristianismo não era apenas uma religião, mas sim uma filosofia de fundo sobre a qual se organizavam as estruturas do mundo europeu. Assim como hoje um chefe de Estado não pode declarar-se "não democrático" e não pode eximir-se de defender, salvaguardar e buscar difundir os princípios democráticos em todos os seus aspectos, o rei medieval e o imperador não podiam dizer-se não cristãos e deviam comportar-se de acordo com isso.

Isso significa que heresia e subversão política e social coincidiam perfeitamente tanto na cabeça dos ortodoxos quanto na dos hereges. O delito específico era referido naquele tempo como, em termos deduzidos do Direito Romano, "lesa-majestade" porque invocar a máxima autoridade política como garantidora da pax deorum. A pena prevista, também tirada do Direito Romano, era a fogueira. Pena Máxima para aquele que era considerado o crime máximo, tinha aplicado sem misericórdia contra os maniqueus. É importante esclarecer como os romanos, tão indiferentes aos vários cultos praticados no Império (a ponto de criarem o Pantheon para honrar todas as divindade, havia também um altar ao deus incognitus)m ficassem tão alarmados pela religião de Mani. tratava-se de uma crença dualística que admitia duas divindades, uma boa e uma má; a criação, obra desta última, era uma coisa má. O ideal, de fato, era impedir a perpetuação do mundo deixando de procriar e, possivelmente, suicidando-se. As variantes desse credo eram muitas e mais articuladas, mas substancialmente se tratava de um culto demasiado pessimista diante de tudo aquilo que era terreno, das boas obras À política. perseguindo como escopo último da humanidade desaparecer e retornar à indistinta condição primordial, os maniqueys depararam-se pelo caminho com a religião do Estado romano que, ao contrário, era solar, vitalista e positiva. Em suma, os imperadores viram, com razão, no maniqueísmo um perigo mortal para a espécie humana. De resto, deve-se sublinhar que as perseguições ao cristianismo foram em grande parte devidas aos efeitos de certas heresias cristãs, como a montanista. Os montanistas, na prática, procuravam fanaticamente o martírio e recusavam qualquer serviço ao Estado, principalmente o militar. Alguns imperadores, pouco inclinados e sutis distinções naquilo que para eles era um dos tantos cultos do Império, declararam o cristianismo como um todo uma religio ollicita.

O problema apresentou-se outra vez quando na Europa - já cristã - reapareceram os maniqueus sob a forma da heresia cátara (também chamada, justamente, neomaniqueia).

Antes do ano 1000, nenhuma heresia tinha sido verdadeiramente de massa. Vez por outra, algum clérigo se metia a sustentar posições muito pessoais sobre a Trindade ou outro temas, ou qualquer fanático se punha à frente de um grupo de outros fanáticos e aplicava o Evangelho ao seu modo. Nada de inócuo, contudo, além do que se poderia pensar à primeira vista.

Durante aqueles anos, por exemplo, um tal Liotardo de Châlons estraçalhava as imagens sacras nas igrejas, incitando os concidadãos a deixarem de pagar o dízimo. Foi quase linchado pela multidão, mas o Bispo Gebuino o absolveu por julgá-lo louco.

Algum tempo depois, Tanchelmo de Utrecht começou a pregar contra a Eucaristia e o clero. À frente de três mil fanáticos armados, maculou-se de homicídios e roubos, ocupou diversas igrejas e procurou se fazer coroar rei. Os bispos apelaram a São Noberto, fundador da Ordem Premonstratense, mas a pregação deste santo não surtiu efeito. A Igreja se limitou a excomungar Tanchelmo, mas o duque de Loreno, Godofredo, o Barbudo, interveio e resolveu a situação manu militari.

Quase contemporaneamente, o bretão Eudes de Stella instiga as multidões contras as igrejas e os monastérios, que saqueava e incendiava com os seus seguidores. As disputas públicas organizadas com ele pelos bispos não davam nenhum resultado. No fim, foi condenado à prisão. Trata-se apenas de alguns exemplos entre tantos, mas serve para dar o quadro geral de uma situação global que via os eclesiásticos tentarem trazer de volta as ovelhas perdidas, e o poder civil intervir apenas quando das teorias se passavam aos fatos.

Mas, precisamente por volta do ano 1000, graças às relações mais intensa entre Ocidente e Oriente, o catarismo se propagou com rapidez impressionante na Europa latina e germânica, aparecendo quase de modo simultâneo na França, Aquitânia, Itália, Alemanha e Flandres. Num primeiro momento, a Igreja se limitou a contrastá-lo com a pregação, mas os resultados foram nulos. Aliás, já tem 991, o catarismo se tinha expandido de tal maneira a forçar Gerberto, durante sua eleição para arcebispo de Reims, a lhe declarar o solene e pessoal repúdio.

Por quase três séculos, o catarismo foi vivido pelos europeus como o flagelo por antonomásia. O mesmo Joaquim de Fiore, eclesiástico cujas  doutrinas milenaristas navegaram no limite da heterodoxia, convenceu-se de que o fim do mundo estava de fato próximo e viu na propagação da heresia (recordemos: até então nenhuma heresia havia chegados às massa populares) a marca do Anticristo.

Considere-se que, de fato, os cátaros não desdenhavam acordos mais ou menos explícitos com os sarracenos contra a cristandade. Foi um momento, longuíssimo, deveras difícil para a civilização cristã europeia, assediadas pelos islâmicos ao Sul, pelos bárbaros pagãos ao Norte e ao Leste, e ainda com esse temível inimigo interno.
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