02/01/2019

Introdução: A Verdadeira História da Inquisição

A Verdadeira História da Inquisição

A Verdadeira História da Inquisição
Este é talvez o tema mais controverso e delicado de toda a história do cristianismo, uma espécie de "esqueleto do armário" da Igreja Católica; algo que, embora desaparecido há séculos, ainda provoca discussão e inflama paixões. O próprio nome passou, na linguagem comum, a indicar fanatismo, intolerância e opressão do pensamento. A mesma palavra "inquisição" evoca, na mente da maioria, imagens sombrias de monges sanguinários, de torturas, da queima de supostas bruxas de atrocidades cruéis cometidas contra pobres diabos culpados somente de colocar em dúvida ou, com frequência, ter a ousadia de contestar o absoluto poder da Igreja sobre as consciências, A Inquisição é igual ao obscurantismo, e a tudo quanto de pior a mente humana possa conceber para oprimir o semelhante. E mais: a Inquisição é vista como precursora da Gestapo e da KGB, ou seja, um tribunal ideológico, um poder vigilante e policial de cujas garras era impossível fugir. Sadismo e fanatismo, em um mix aterrorizante e tanto mais repulsivo quanto distante das palavras de bondade e compreensão saídas da boca de Cristo.

Todavia, o leitor médio, produto da escola obrigatória, nunca tem tempo de deter-se sobre um detalhe curioso: as sombrias cenas inquisitoriais que viu nos livros escolares são gravuras e impressões da época. Isto é, desenhos. Não só. Se tivesse se dado ao trabalho de olhar nas legendas de tais ilustrações a data e a proveniência, teria certamente descoberto que algo não se encaixava. 

Uma representação do século XVII de origem francesa, por exemplo, tem grande probabilidade de ter sido concebida de modo polêmico no ambiente iluminista. Um ou outro já deve ter visitado um dos tantos "museus da tortura" abertos aqui e ali para a alegria (e o terror) dos turistas. Mas poucos perceberão que na maioria das vezes estão admirando (supostas) reconstruções oitocentistas de instrumentos de tortura provavelmente ingleses. Muito menos, entre eles, serão aqueles informados sobre o fato de que na Inglaterra não havia Inquisição. Ainda: muitos mais serão aqueles que terão visto o filme. Entre estes, grande parte decerto terá experimentado, à época, um gélido frisson ao ler o famoso O poço e o pêndulo, de Edgar Allan Poe. É uma pena que todas não sejam mais que obras de ficção que pouco têm a ver com a história.

A história da Inquisição, de fato, é bem diferente, como bem sabem os especialistas acadêmicos que há tempos desconstruíram a "lenda negra" imposta sobre aquela instituição eclesiástica e redimensionarem notavelmente a sua imagem. Nenhum historiador sério hoje em dia ousaria repropor modelos caducos e superados como os que descrevemos acima, mas que ainda povoam o imaginário popular. E isto porque, paradoxalmente, a Qinusição foi, nos longos séculos de sua existência, a instituição mais transparente entre aqueles que lhe eram contemporâneas. Na realidade, os juízes inquisitoriais tinham a obrigação de manter rigorosíssimo relatório, redigido até mesmo por um escrivão, das suas sessões. Quase todos esses documentos (uma massa impressionante) foram preservados, e estão à disposição de estudiosos junto com numerosos "manuais" para inquisidores (como a famosa Pratica de Bernardor Gui, inquisidor que, na verdade, era relativamente brando, mas que é retratado de maneira sombria no romance de Eco), além de instruções pontifícias, bulas canônicas, decretos de concílios, etc. No entanto, foi justamente essa massa que impediu por longo tempo uma serena avaliação do fenômeno inquisitorial. Por exemplo, só há pouco tempo, utilizando o computador para analisar mais de cinquenta mil processos compreendidos num arco de um século e meio, o especialista dinamarquês Gustav Henningsen foi capaz de descobrir que as condenações à morte proferidas eram apenas um percentual ínfimo do total de sentenças. De tais condenações, não se sabe quantas foram efetivamente executadas. Bastaria apenas isto para demolir o mito dos "milhões de vítimas" da Inquisição.

Há mais. Outros especialistas descobriram que o fenômeno mais associado à Inquisição, isto é, a bruxaria, teve pouca relação com a própria Inquisição. Como, aliás, teve pouca relação com a própria Inquisição. Como, aliás, teremos ocasião de constatar, uma Inquisição que passou a ser vista como cruel, a espanhola, chegou mesmo a salvar as supostas bruxas, classificando-as como representantes de episódios de superstição, e assim impediu que elas sofressem algum mal. Descobriremos também que a bruxaria foi um fenômeno moderno, que se manifestou com vigor nos séculos XVI-XVII, quase sempre, nos países protestantes. Outra coisa que descobriremo é o fato que a Inquisição, ao contrário do que se acredita, ocupou-se muito pouco de "livres pensadores"; na maioria dos casos, um "assunto interno" da Igreja: diante dela, na verdade, compareciam quase que exclusivamente frades, sacerdotes e monges. Trataremos de casos notórios como o de Galileu,e veremos que a alegada polêmica entra ciência e fé, ainda que nunca terminada, ganhará outras proporções. Veremos também, aproximando-nos dos procedimentos inquisitoriais, a surpreendente modernidade daquele tribunal, quase, paradoxalmente, um precursor do garantismo dos dias atuais.

Tudo isso terminou por provocar entre os especialistas uma espécie de curiosa inversão na avaliação do fenômeno "Inquisição", o que chamou a atenção do estudioso Adriano Prosperi. Ele chegou, de fato, a recear o surgimento de uma espécie de "lenda rosa" sobre a Inquisição, num ensaio de 1988, conclamou seus colegas à ordem, lembrando o quão longe aquele tribunal estava, ainda que relativamente brando se comparado à justiça laica, daquilo que entendemos modernamente por tolerância e respeito pelas opiniões heterodoxas.

Acontece que aqui saímos da História e entramos no juízo ideológico-moral. É verdade que a Inquisição foi intolerante e inimiga da liberdade de pensamento. mas tolerante e inimiga da liberdade de pensamento. Mas tolerância e liberdade de pensamento são conceitos apenas recentemente (e ainda não completamente) adquiridos pela consciência coletiva. Nos tempos da Inquisição, na verdade, a consciência coletiva, pelo contrário, deveras tinha muita convicção na existência e na unicidade de verdade, e que tal verdade deveria ser defendida por todos os meios possíveis. Os hereges contra os quais a Inquisição combatia nunca reivindicavam a liberdade de culto para todos, coisa então simplesmente inconcebível, mas opunham a sua verdade àquela da instituição majoritária.

As figueiras contra os hereges e as bruxas foram acesas também na Genebra de Calvino e na América dos Peregrinos. Os anabatistas de Munster exterminaram os "réprobos" e os "papistas" e assim fizeram os dolcinianos e os anglicanos de Henrique VIII, de Elizabeth I, de Cromwell. Portanto, e se for o caso, é mais correto narrar os fenômenos enquadrando-lhes em seu contexto. Comparando, por exemplo, o funcionamento efetivo da Inquisição àquela dos tribunais laicos de lhe foram contemporâneos, seria fácil perceber que a Inquisição foi mito mais branda e tolerante, e que os padres que faziam parte dela estavam sinceramente empenhados pela salvação das almas. Isto sem minar em nada o juízo pessoal que as sensibilidade moderna poderá induzir no leitor.

Devemos também advertir que a mais recente historiografia repudia o termo singular "Inquisição", fazendo uso do - mais correto - plural: "Inquisição", De fato, tratou-se de uma instituição que era tudo menos monolítica; ela variou no tempo e nos lugares para fazer frente a testante, de resto, teve as suas inquisições, porém não se tratou de tribunais estruturados como aqueles católicos. Emfim, é preciso advertir que houve também inquisições laicas, isto é, organismo estatais emanados diretamente da autoridade política, como nos casos das Repúblicas de Lucca, Gênovas e Veneza que providenciaram a luta contra as heresias com os próprios magistrados.
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